A Tradição Shangpa Kagyu e a Perspectiva Não-Sectária

Kyabje Kalu Rinpoche e a Transmissão do Dharma

I Kalu Rimpoche

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I Kalu Rinpoche nasceu em uma aldeia no leste da província oriental Kham, no Tibete em 1905. Uma série de eventos auspiciosos marcaram seu nascimento. Ensinado a ler e a escrever por seu pai e um aluno extraordinário, tomou o hábito de monge ainda criança no mosteiro de Begen e aos onze anos de idade recebeu uma cadeira de Khenpo, título equivalente a “doutor em Budismo” (normalmente são necessários cerca de doze anos de estudos superiores para obtê-lo). Dedicando-se aos estudos e recebendo grandes mestres de todas as escolas do Budismo Tibetano, Kalu Rimpoche se fundamentou na transmissão tradicional (iniciações, leituras rituais e explicações) e recebeu a ordenação maior de Situ Rinpoche, que, na ocasião, deu-lhe o nome de Karma Rangjung Kunkhyab, nome que profetizava que sua atividade difundiria-se de modo espontâneo (rangjung) e universal (kunkhyab), por toda a terra.

Foi um dos primeiros grandes mestres tibetanos a abrir livremente a todos – asiáticos e ocidentais -, o acesso à riqueza da tradição Budista, cuidadosamente preservada no Tibete desde os últimos mil anos. Desde o início dos anos 1970, apesar de sua idade avançada, ele fez muitas viagens internacionais, apresentando progressivamente a diversos grupos diferentes níveis de ensinamentos, introduzindo as práticas correspondentes e fundando mais de 70 centros do dharma em diferentes países. No mundo inteiro, sua bondade e sua atividade espiritual suscitaram imensos resultados para a doutrina e para os seres.

II Kalu Rimpoche

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Alguns anos antes da passagem da precedente encarnação (em 1989), Kalu Rinpoche disse a um grupo de discípulos: “Quando eu morrer, não será como a morte de um cachorro. Eu irei depois de ter preparado tudo em detalhes.”

II Kalu Rinpoche renasceu, como ele próprio havia previsto, em 1990 em seu monastério na Índia. Seu nascimento ocorreu durante um ritual de oferenda mensal à divindade protetora Mahakala de Seis Braços e, novamente, vários sinais positivos e maravilhosos manifestaram-se.

Foi reconhecido por sua Santidade o Dalai Lama e por Tai Situ Rinpoche como de fato a emanação do precedente Kalu Rinpoche e, desde pequeno, inspirou a todos que o conheceram com sua presença amável e carinhosa.

Em 1993 foi entronado por Tai Situ Rinpoche, Gyaltsab Rinpoche e por seu filho de coração, Bokar Rinpoche. Tai Situ lhe deu o nome de Karma Ngedon Tenpe Gyaltsen (O Estandarte da Vitória dos Ensinamentos de Significado Verdadeiro) mas é conhecido atualmente como Kyabje Kalu Rinpoche. Em 1995, aos 5 anos, realizou seu primeiro ciclo de ensinamentos nos seus Centros de Dharma em vários países, junto com seus pais Lama Gyalsen e Mayum Drolkar, visitando entre outros, o centro, em Brasília. Aos 7 anos começou seus estudos formais no monastério de seu antigo discípulo, agora mestre, Bokar Rimpoche e, aos 18 anos, completou com sucesso o tradicional retiro de 3 anos.

Agora estamos profundamente agradecidos e contentes que Kyabje Kalu Rinpoche reassumiu o posto de detentor da Linhagem Shangpa Kagyü e voltou a ensinar em seus centros de Dharma, mundo afora, a essência da doutrina de Buddha. Através de seus votos de Bodhisattva, feitos e confirmados, vida após vida, seu único objetivo é beneficiar todos os seres e manter viva a essência de Buddha para que todo aquele que busca caminhar neste caminho, possa o fazer com clareza e sucesso.

Este mesmo mestre que nos acolhe ao coração de sua Linhagem com profunda simplicidade, humor e coragem. Cortando hipocrisias sociais e internas, ele libera o caminho para que possamos ver e seguir o nosso caminho interior de paz, felicidade e realização dos nossos mais profundos desejos. Desta forma somos capazes de avançar em direção a sermos pessoas felizes, positivas, ativas e despertas neste mundo.

Estudo, Compreensão e Prática

Kalu Rinpoche não espera que seus seguidores apenas reproduzam a tradição formal, institucionalizada e codificada há séculos com o principal propósito de preservá-la e perpetuá-la. Ele enfatiza os pontos principais encorajando os praticantes a compreenderem seu significado essencial e a integrá-los em suas vidas. Ele considerava a progressão por meio dos seguintes passos: Aprender, Compreender e Experimentar.

Sob sua orientação, em 1977, cerca de 10 anos após seu primeiro encontro com ocidentais interessados em sua tradição, ele proporcionou o primeiro retiro de três anos de meditação intensiva na Europa, mais especificamente, na França. Com base em uma boa compreensão geral dos ensinamentos, Kalu Rinpoche enfatizou a prática da meditação intensiva para desenvolver uma experiência prática e direta.

Nos anos 80, após os primeiros retiros longos, Kalu Rimpoche considerou que era apropriado desenvolver o aspecto dos estudos. Ele encorajou a tradução de uma coleção de textos do grande erudito e meditador tibetano do século 19, Jamgon Kongtrul Rinpoche. Esse trabalho colossal foi completado recentemente por seus fiéis e qualificados discípulos, e resultou na publicação dos nove volumes do “Tesouro do Conhecimento”.

Estudos e Práticas no KPG

Depois da passagem de Kalu Rimpoche, em maio de 1989, seus discípulos continuaram sua atividade de criar condições para compartilhar as transmissões que eles receberam. No KPG, em Brasília, desde os anos 1990, Lama Sonam e Lama Trinley progressivamente abordaram os ensinamentos centrais por meio do estudo cuidadoso dos manuais recomendados por Kalu Rinpoche: “O Precioso Ornamento da Liberação”, de Gampopa, e “As Instruções do Meu Precioso Mestre”, de Patrul Rinpoche. Juntos, introduziram diferentes práticas de meditação analítica e contemplativa e, atualmente, junto de mais 4 Lamas, seus discípulos, continuam o desenvolvimento dos estudos referentes aos grandes mestres tibetanos e indianos Atisha, Shantideva, Asvagosha e Nagarjuna.

Rime – Abordagem não sectária

“No Tibete, no fim do século 19, sob a inspiração de grandes mestres daquele país, foi desenvolvida uma “abordagem não sectária” (Ri-me significa imparcial). Seu objetivo não era fazer uma síntese das tradições existentes e criar um novo movimento. Considerava-se que, mesmo sendo seguidores de uma tradição específica, não era necessário menosprezar a validade das outras. Eles destacavam o propósito comum das tradições, apesar de suas diferentes expressões em formas e meios. Eles valorizavam uma atitude de respeito, tolerância e colaboração, ao invés de rivalidade e competição. Para suportar essa perspectiva, eles encorajavam estudos extensivos e enfatizavam a prática da meditação.

Kalu Rinpoche, que foi um continuador dessa visão, inspira nossa orientação. Nos dias atuais, acreditamos que o campo de focalização não deve estar somente limitado ao Tibete do século 19, mas aberto a todos os conhecimentos relacionados, acessíveis atualmente pelos meios disponíveis em nossos dias.”

Lama Trinle(1)

(1) Lama Karma Trinlé Kunkhyab nasceu na França em 1949 e esteve presente em 1977, no primeiro retiro de três anos que Kalu Rinpoche proporcionou aos ocidentais. Em março de 2005, veio para o Brasil, residir em Brasília, para organizar o primeiro retiro de três anos da Linhagem Shangpa, além de desenvolver as atividades de estudo e prática do KPG.